Pulp Fiction

Beba Coca-Cola, que eterniza melhor!

Texto de Héctor Gorla | Ilustração de Pedro Vieira

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Como qualquer criatura viva que emite os primeiros sons, suscitou a nossa ternura de imediato. Mais do que um cachorro, era uma madeixa de pêlos com dois enormes olhos que nos olhavam desde o seu desamparo. Um vizinho tinha-o encontrado à sua porta, e rapidamente aterrou no nosso pátio, o da única família do quarteirão que ainda não tinha mascote. Elena tinha trazido ao mundo Anselmo havia apenas três semanas; só uma vez a vida a presenteou com a glória da maternidade. Pariu-o no quarto, como era costume então, com bacias de água quente, parteira do outro quarteirão, e um médico em mangas de camisa que suou para sacá-lo, porque vinha de cu. Elena disse que sim, e ficámos com o Vagido, o cão, que foi dessa forma que o apodámos pelo som peculiar que emitia quando tentava rosnar. De modo que a família cresceu descomunalmente naquele ano de 1938.

Era uma época complicada, de fraudes, falências, corrupção, favores políticos, negociatas, traições e deslealdades de variada índole, mais ou menos como agora. Mas nós estávamos bem: a loja rendia-nos um bom dinheiro (às pessoas encantava-as vestir-se todos os dias “como pa’ ir a um casamento”), e quanto à política, para dizer a verdade, nunca lhe demos bola.

A mesa, servida profusamente apesar de sermos poucos na família (a mamã viveu connosco até que se foi em 62), engalanava-se todos os dias com a garrafa de Coca-Cola, que eu preferia à Bidú, à Bilz ou outros engendros da fábrica de gasosa do bairro. Creio que o vício, agravado com os anos, me levou a consumir o negro néctar do norte com doentia ansiedade.

 

[ilustração de Pedro Vieira]

Ilustração de Pedro Vieira

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Ilustração: Pedro A. Sanjuan

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Com desagrado fui constatando que Anselmito preferia a Bidú, a mamã e Elena um copito de vinho com gasosa, e que éramos eu e o cão os que se regalavam com Coca-Cola, carentes de solidariedade. A primeira vez que o Vagido provou o delicioso líquido foi quando verti o meu copo no almoço de domingo e fui à cozinha buscar um esfregão. Voltei a entrar na sala de jantar e encontrei-o em cima de uma cadeira, com as suas duas enormes patas sobre a mesa de acaju e o focinho metido naquela confusão, cirandando gulosamente com a sua língua enorme e vermelha sobre toalha às flores, alentado pela hilaridade dos comensais.

Desde então abasteci-o de Coca-Cola com tanta fruição como à minha própria garganta. Os veterinários sentenciaram uma morte rápida, certa e horrenda, devido a que a gasosa fazia estragos nas vísceras dos quadrúpedes. Para dizer a verdade, já desejei encontrar-me com muitos desses cientistas, porque um ou outro mudou de bairro, a maioria reformou-se da profissão, outros simplesmente descansam em paz.

Quase me expulsaram do hospital, Elena agonizava. Estava desesperado, aborrecia-a por não me ter feito caso, odiava-me a mim próprio porque não tinha insistido com ela com a necessária convicção. A sua resposta tinha sido invariável: “Não, essa porcaria beba-a você”. Elena censurava-me ainda por estar a matar o cão, e tão especial que ele era. E eu respondia-lhe que não, o segredo é esse, você e Anselmo têm de bebê-la também..., mas a ela dava-lhe muito nojo, sabia-lhe a xarope para a tosse, a remédio rançoso. Lembro-me que levantei o seu corpo inerte entre soluços, abri-lhe os lábios, aproximei-lhe o copo, vazei o conteúdo na sua boca. Agora sei que este último empenho chegou muito tarde para salvá-la, que a Coca-Cola desceu pelo esófago de um corpo que já tinha deixado de palpitar e respirar.

Isso foi em Janeiro de 1992. A morte de Elena devastou-me. Tentei suicidar-me, e não pensei em maneira mais eficaz do que fazê-lo deixando de beber Coca-Cola. Também tentei matar o Vagido com a mesma metodologia. O vendedor de gasosa aprovisionava-nos de garrafões a cada dia, para acompanhar o vinho ou o sumo mal tolerados. Anselmo visitava-me com frequência, se bem que o coitado tivesse os seus próprios problemas, e não estava para essas coisas. O Vagido andava pelos cantos, desesperado, alternativamente intratável ou abatido. Senti que um fogo me abrasava as entranhas, tudo o que comia caía-me como dinamite. Os alimentos progressivamente perderam o sabor, mesmo os mais apelativos, que comprava na churrascaria do Pocho. Uma semana mais tarde estávamos a morrer, o Vagido e eu.

No entanto o meu corpo clamava pela bebida, e o cão olhava-me tristemente e compartilhava a minha inquietude. Como pudemos, arrastamo-nos até ao armazém e comprámos duas garrafas, que consumimos ali mesmo, caídos pela berma. O Vagido esvaziou rapidamente a escudela que sempre levo connosco, enquanto o gargalo da outra garrafa me devolvia a vida perdida.

Agora não temos nada a fazer, e dedicamo-nos a passear pelo parque. Há já muito que encerrei a loja, mas a reforma chega-nos para viver. Para mais, o que a gente faz actualmente não é vestir-se, apenas tapar as partes pudendas mal e sem gosto.

Vejo-o com achaques, lento, às vezes mais para lá do que para cá. Acho que em breve partirá, mais cedo ou mais tarde acabará por ir, a lei da vida estabelece que o cão tem de morrer antes do dono. Nenhum viveu tantos anos como ele, e prefiro guardar este segredo. Vou sentir-lhe a falta, mas não substituí-lo. Ficarei sem companheiro de passeios, sem amigo que me acompanhe a beber. E uma particularidade: o Vagido prefere Coca-Cola natural, eu aprecio-a mais quando está fresca, refulgente, no ponto.

Anselmo reformar-se-á dentro de alguns anos, e nunca adquiriu o meu vício. Uma lástima, isso. Não sei se aguentarei a sua morte, a sua ausência total, abarcadora, o último vazio que me apresenta a vida. Vou ficar só, anacrónico, profundamente pesaroso. Sinto medo, vergonha e medo. E outra particularidade: nunca me habituei à garrafa de PVC.

O Vagido e eu caminhamos, e esperamos encontra-nos no céu, para onde também irei num dia mais ou menos distante. Espero que o céu dos humanos e o dos cães seja o mesmo, ou que pelo menos possamos passar de um para o outro sem muita burocracia celestial.

O Vagido olha-me com os seus dois enormes olhos cansados, e creio que também se pergunta se nesses céus existirá uma lojita onde comprar Coca-Cola.

 

Tradução de FERNANDO GOUVEIA

Publicado na Periférica n.º 11 (Outono 2004)

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